Neste final de agosto completaremos 20 anos da Conferência de Durban contra a xenofobia e qualquer tipo de discriminação, que aconteceu de 31 de agosto a 8 de setembro na África do Sul. Neste mês estamos vivendo as emoções das Olimpíadas em Tóquio. Onde encontramos o ponto comum desses eventos? Os dois trazem a proposta de integração de todos os povos e o respeito às diferentes formas de ser no mundo… Não posso deixar de relembrar meu encontro com a querida antropóloga doutora Sheila Walker lá em Durban em 2001. Participamos juntas de vários eventos e até de uma manifestação a favor dos indianos, numa passeata contra castas, entendidas como racismo.

Helena Theodoro e Sheila Walker em Durban, em 2001[fotografo]Arquivo pessoal[/fotografo]
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Muitos são os heróis dessa Olimpíada, seja no Brasil ou no mundo, mas podemos constatar que a comunidade preta faz parte desse grupo. Nossa Rebeca Andrade nos trouxe medalhas de ouro e prata em aparelhos e se declarou muito feliz com a vitória da ginasta americana na apresentação de solo. Que demonstração de humanidade e respeito ao outro!

Novos tempos: Paulinho comemora seu gol na estreia do Brasil em Tóquio com o arco e a flecha de Oxóssi[fotografo]Reprodução/Instagram[/fotografo]
Assim sendo secreta, política e sagrada, ganha o mundo, superando obstáculos, dores e rejeições. Em qualquer atividade que exerça consegue chegar a pontos de excelência e qualidade extrema, porque acredita na sua capacidade de transformar o mundo e de gerar beleza sempre. Sua alegria contamina tudo e todos, tendo um espírito liberto, livre de correntes e de limitações. As mulheres negras trazem em si o sentimento de esperança e liberdade, que as fazem pessoas que acreditam no futuro, em si mesmas e em seus filhos.
Rebeca nos prova a fé de uma atleta que passou por muitas dificuldades, por variadas operações no joelho, mas que nunca perdeu a fá em si mesma e em suas tradições. Essa ancestralidade preta, que superou tantos sofrimentos e privações acredita num mundo de harmonia e beleza, entendendo que ao perder um embate pode ficar feliz em assistir o sucesso de outra pessoa por reconhecer seu merecimento. Este caminho nos aponta, em momentos tão difíceis de pandemia, como surge uma luz no fim do túnel, como a humanidade pode crescer como pessoa, gerando emoções positivas e sentimentos louváveis mesmo quando existe derrota. Rebeca nos traz a esperança de um mundo mais humano e solidário. Nos ensina que perder também é ganhar em humanidade e em respeito ao outro.
Mais uma vez constatamos que as mulheres pretas transformam o mundo, como Ana Marcela Cunha, mulher negra, baiana, que nos deu a medalha de ouro inédita na maratona aquática. Temos duas mulheres negras brasileiras, mostrando a força de sua ancestralidade e resiliência. Elas nos remetem a ubuntu, palavra africana que pode ser traduzida por “Eu sou porque nós somos”, ao agradecerem as mães, como Rosa Santos, mãe solo de oito filhos, figura fundamental para a superação de uma série de lesões de Rebeca, a quem a atleta atribui sua força e equilíbrio.
Quando penso que em 2001 foi estabelecida a Declaração e Programa de Ação de Durban como uma agenda da comunidade internacional para combater o racismo e todas as formas de discriminação racial e que deu como resultado a criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) como um órgão do Poder Executivo do Brasil ,criada em 21 de março de 2003 e extinta a 2 de outubro de 2015, lembro da abertura das Olimpíadas de Tóquio com uma japonesa negra acendendo a tocha olímpica. Estamos vivendo momentos difíceis para a comunidade preta que vem assegurando ao país medalhas na ginástica, no atletismo, no boxe, no futebol e na maratona aquática.
Nossa resistência se faz necessária para vencermos estes tempos de pandemia e de necessidade de apoio efetivo à comunidade preta, que é basicamente pobre. As Olimpíadas nos indicam o caminho das alianças e da luta mundial contra o racismo. Com meus amigos americanos aprendi que Hitler, o ditador alemão, se baseou na forma de tratamento dos brancos americanos em relação aos negros para estabelecer as formas de atuação contra os judeus. Hoje continuamos sofrendo perseguições e descrédito, mas estamos presentes em todos os lugares. Nossa capacidade de trabalho e criação nos possibilitou participar hoje de quase todos os países do mundo.
Temos negros italianos, turcos, japoneses, ingleses, franceses, indianos, belgas etc. Vamos aproveitar o espírito das Olimpíadas, chamar os judeus e todos os demais povos para fazer alianças em nome da preservação de nossa humanidade, seguindo o exemplo de atletas como Rebeca Andrade, a Daianinha de Guarulhos , que mostrou com quantas piruetas e delicadeza se cria um pais civilizado ao sair dançando um funk de MC João e uma tocata de Johann Sebastian Bach, mostrando como uma menina preta e pobre se livra dos grilhões das dificuldades e emerge gloriosa, com um sorriso e a certeza que a vida vale a pena ser vivida.
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