Que Brasil está sendo revelado à exaustão pelos mensalões e pela Lava Jato?
Do ponto de vista eleitoral, trata-se de uma democracia (governo eleito pelo povo) que carrega o peso contaminador da venalidade. Os donos inescrupulosos do poder compram votos de muitos eleitores assim como boa parcela dos próprios parlamentares (que fabricam leis que garantem os privilégios e roubalheiras deles).
Em termos de governabilidade, alguns agentes públicos bem-intencionados convivem com o nefasto clube dos ladrões do dinheiro público, cujos sócios principais (grandes conglomerados econômicos com acesso ao poder, alguns bancos e partidos, grandes meios de comunicação etc.) se digladiam para saber quem mais se apodera dos bens e do patrimônio da população. Nesse sentido, o Brasil é uma roubocracia ou uma cleptocracia?
Do ponto de vista gerencial, por força da predominância da má política (nepotismo, fisiologismo, “tomaladaquismo”), a parcela honesta e competente do setor público divide espaço com os piores indivíduos da sociedade (isso se chama caquistocracia = governo dos piores).
O lado obscuro do Brasil fracassado é, portanto, um misto de democracia venal com roubocracia e caquistocracia. Esse Brasil atrasado é gerido por um clube, cujos membros são os verdadeiros donos do país. Ele tem suas regras.
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Nele se ingressa pela força ou pelo voto. Mas essa admissão é sempre condicionada. Para se manter como sócio desse clube o que interessa não é a honestidade nem o bem-estar ou a felicidade do cidadão. O que importa é, desde logo, o crescimento econômico, pois quanto mais forte a economia, mais roubalheira se torna possível.

"Dois anos consecutivos de crescimento econômico negativo significa expulsão do clube (do grupo). Cartão vermelho"
Nos últimos 40 anos, os grandes sócios expulsos do clube das roubalheiras foram, portanto, o regime militar (1964-1985), Collor (1990-1992) e o Partido dos Trabalhadores (2003-2016). Eles foram defenestrados pelo sistema (ou mecanismo) da roubocracia. Enquanto úteis, permaneceram no clube. Quando se tornaram inconvenientes, foram expelidos.
A regra de Esparta é outra diretriz seguida pelos donos ladrões do poder: tolera-se e incentiva-se o roubo, mas o ladrão não pode ser publicamente descoberto ou flagrado ou perder sua força. Expoentes máximos do PT, PSDB, MDB, PP e outros partidos (Aécio, Cunha, Geddel, Palocci, Lula etc.) estão sendo ou já foram expulsos da estrutura da roubocracia por terem violado a regra de Esparta, que castigava suas crianças não pelo roubo que era estimulado, mas por terem sido descobertas.
Qual é a função da medida extrema do impeachment ou da queda de um regime?
Benjamin Franklin (um dos pais fundadores da modernidade norte-americana) implacavelmente escreveu: “o impeachment é uma forma de se livrar de um mandatário que se revela detestável (“obnoxious”) sem ter de matá-lo”. Aliás, cumprem esse papel não apenas o impeachment, senão também a queda de um regime e a cadeia.
Quando o mandatário se torna detestável? Para o clube dos donos corruptos do poder (os que saqueiam a nação sem dó nem piedade) o decisivo não é a desonestidade (com a qual eles estão habituados) muito menos a má qualidade de vida ou a miséria extrema do povo (o povo só vale como consumidor e nada mais).
O mandatário se torna detestável e é punido com a expulsão do clube dos ladrões se for publicamente descoberto ou quando não promove crescimento econômico positivo. Quando tudo vai mal na economia, os donos do poder se encarregam de promover o isolamento político do governante, que fica sem sustentação no Parlamento e no povo.
No crime organizado privado assim como nas máfias, quando o líder perde a confiança é assassinado. No crime organizado dos donos corruptos do poder promove-se seu impeachment, sua queda ou sua prisão. Cortando o foro privilegiado, por exemplo, chega-se fácil à prisão.
O que as facções vitoriosas do clube de ladrões chamam de impeachment, os militantes das facções expulsas desse paraíso denominam de “golpe”. O nome não importa, seja golpe, impeachment, queda ou prisão: essa é a dinâmica nua e crua de todos os crimes organizados.
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