Uma coisa é usar as redes sociais para disseminar discursos de ódio e/ou contribuir para a derrubada do Estado Democrático de Direito por meio de um golpe de Estado. Outra, é usar as mesmas redes para dar golpes financeiros, sobretudo em aposentados e pensionistas, as vítimas mais vulneráveis. Uma terceira, é o uso das redes sociais para alavancar “likes” que atraem anunciantes e com isso irrigar com milhões de reais as contas bancárias de figuras como Pablo Marçal, para ficar num único exemplo.
Mas ultimamente vem crescendo uma nova forma de atuação dos influenciadores digitais. É a disseminação escancarada de conteúdos misóginos para espalhar o ódio às mulheres. Relatório do Ministério das Mulheres, realizado a partir das pesquisas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), denunciou a forma como os “influencers” se prevalecem da difusão da misoginia não apenas para afirmar suas posições mas – e aqui reside o, digamos, “passo à frente” desses canalhas – para ganhar dinheiro com isso. Muito dinheiro. Com a venda, por exemplo, de “cursos” e “mentorias” sobre “desenvolvimento masculino. Um deles leva o sugestivo título de Aprenda a evitar ‘este tipo’ de mulher: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube.
A ministra Cida Gonçalves, do Ministério das Mulheres, horrorizou-se com o resultado da pesquisa que analisou mais de 76 mil vídeos de 8 mil canais. Juntos, eles somam 4,1 bilhões de visualizações e 23 milhões de comentários. Diante de quadro tão escabroso, ela advertiu: “Daqui está se gerando uma gama de ódio que se espalha por toda a sociedade brasileira. Precisamos do mínimo de regulamentação (das plataformas digitais) para fazer algo de concreto”.
Pois precisamente aqui reside o ponto sensível da questão. Ativistas de direita, que se utilizam das plataformas não apenas para a difusão de suas ideias criminosas mas para faturar com elas, não querem nem ouvir falar de regulamentação, pois isso significaria o fechamento dessa mina de ouro. Quando confrontados com a reivindicação de regulamentação das plataformas, a primeira reação é a de acusar os postulantes de censurar a livre manifestação do pensamento. A deputada Bia Kicis (PL-DF), por exemplo, combate qualquer tipo de regulamentação sob o argumento de que isso é censura que vitimiza exclusivamente os bolsonaristas e a direita de maneira geral.
A ministra Anielle Franco reagiu espantada: “Me impacta saber que as pessoas estão ganhando dinheiro com isso. Quantas vezes a gente [do governo federal] lançou conteúdos que não chegaram a esse número de visualizações”.
A desfaçatez dos influenciadores atinge o ápice quando se percebe, pelos dados do relatório, que eles não se envergonham de mostrar nome e cara em seus discursos virulentos contra as mulheres. “Isso é interessante – comenta Marie Santini, diretora da equipe de pesquisa – porque quando observamos os discursos de ódio, no geral, se vê o uso do anonimato. Mas isso não aparece nesses casos”. A suspeita para a cara de pau dos influencers misóginos aparecerem nas postagens de cara lavada é simplesmente a crença na impunidade. Segundo o estudo, a estratégia dos influencers misóginos é captar a adesão de homens que atribuem a culpa de suas frustrações pessoais às mulheres. A coordenadora da pesquisa Luciane Belin acrescenta: “Outro aspecto que chama a atenção é a perspectiva conspiratória. Cria-se um inimigo oculto. As mulheres que defendem os próprios direitos são o inimigo e eles precisam se defender dessa opressão”.
Falta acrescentar que tudo isso acontece num contexto de radicalismo político extremista de direita, respaldado pelos endinheirados do agronegócio, que operam em territórios historicamente machistas e patriarcais, turbinados nos últimos anos pelos discursos religiosos que imperam em templos e redes evangélicas, cujos pastores fazem leituras e interpretações literais, fundamentalistas ou enviesadas dos textos bíblicos.
Alguns pequenos e rápidos exemplos, a maioria extraída do Velho Testamento: “Mulheres, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor”. “O homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem”. “Se uma jovem é dada por esposa a um homem e este descobre que ela não é virgem, então será levada para a entrada da casa de seu pai e a apedrejarão até a morte”. “Foi pela mulher que começou o pecado, e é por culpa dela que todos morremos”.
Naturalmente que a maioria dos textos tem por base a cultura machista da época em que foram escritos, e não a visão atual, moderna e arejada de igrejas cristãs tradicionais, como a Católica e a Anglicana. Mas esse tipo de discurso baseado na interpretação literal e fundamentalista sem contextualização ao tempo em que foram escritos vem servindo de base às pregações. E que, embora não faça parte da pesquisa, acreditamos que também contribuem para dar suporte “espiritual” aos misóginos arrecadadores. Que se garantem também pela certeza da impunidade.
Canais com conteúdo misógino têm 3,9 bi de visualizações e faturam com ataque a mulheres
Caro Paulo,
Você menciona a necessidade de contextualizar passagens do texto bíblico, a exemplo de “leituras e interpretações literais, fundamentalistas ou enviesadas”. Junte essa sua observação à reação da ministra Aniele Franco (“Me impacta saber que as pessoas estão ganhando dinheiro com isso. Quantas vezes a gente [do governo federal] lançou conteúdos que não chegaram a esse número de visualizações”) e aí se desenha a complexidade desse tema.
Se há público maior (visualizações) para os difusores de informações maldosas, o governo fracassa na divulgação de seus conteúdos porque ignora o charme do mal e, mais ainda, desconsiderou as características e desejos do público que pretende alcançar.
É sabido: mentalidade não se muda por decreto, nem por boas intenções. A visão caolha sobre a mulher vem de longe, está na Bíblia, e se junta ao mistério que adorna o mal de enorme charme. O mal é atraente, sedutor e captura as almas supostamente indefesas com mais eficiência do que o bem.
A moldura protetora dessas duas dimensões somadas não é a impunidade, mas sim a tolerância e complacência dos homens e o comando deles nas instituições de poder. Lembremos, sobre isso, o entendimento escroto, conhecido pelo nome “em defesa da honra”, que prevaleceu até nossos dias no Judiciário do estado de Minas Gerais para proteger maridos e amantes assassinos de mulheres.
Nesse sentido, o texto bíblico padece de datatísmo. A escravidão é menos evocada, mas também aparece no Livro Sagrado de forma naturalizada. Ao tratar do adultério, o Evangelho de Mateus municia os pastores ciosos por rebanhos de fiéis incautos para robustecer o faturamento do dízimo em outra vertente do fascínio que o mal exerce em mentes socialmente deformadas. Os influenciadores seguem o mesmo método. E assim, três perguntas nos colocam diante dessa problemática: primeira, o que a criança ouve no âmbito familiar sobre a mulher?; segunda, o que e como as escolas ensinam nos primeiro e segundo graus sobre a mulher; terceira, de que forma o arcabouço institucional tratou e trata os direitos da mulher?. As respostas explicam cabalmente o conteúdo denunciativo do artigo “O discurso de ódio às mulheres como alavanca pra ganhar (muito) dinheiro”.
Ijalmar M Nogueira
Jornalista
Gente que segue o exemplo do atual pres. da Câmara, Arthur Lira, que tem uma horrenda história de agressões e violências. Inclusive, contra sua ex-esposa.