Divinas feministas

Jaci convidou Iara, Ceuci, Sumá, Jururá-Açu, Caupé, Guaipira, Picê, Biaça, Açutí, Arapé, Graçaí, Piná, Yebá Bëló, Tainacam, as Tiriricas e as Parajás para conversarem sobre o aumento da violência contra as mulheres no Brasil. Ela escutara de Luison – na última semana em que se exibiu mytyruwy-noti, na sua brilhante e cheia roupa noturna – que o número de feminicídio estava incontrolável, até mesmo para ele que estava acostumado com a morte. A ideia inicial de Jaci era convencer as suas amigas a criarem um pacto entre as mais diversas divindades e, através dele, influenciarem na formatação de um mundo espiritual que respeitasse os mais diversos gêneros que residem no habitat por elas criado. Iara fora a primeira a chegar. A Mãe D´água também queria incluir na pauta do encontro a diária agressividade praticada por garimpeiros que, clandestina e ilegalmente, violentam as águas dos rios amazônicos.

A reunião demorou mais do que era esperado pela anfitriã, até porque também elas foram vítimas de atos machistas praticados por alguns deuses, pajés e integrantes das comunidades que as veneravam. Não fossem as frutas e os frutos gentilmente trazidos por Ceuci – para alívio da anfitriã Jaci – a fome estaria sendo servida no encontro. Somente quando Guaraci começou a despertar o dia é que o compromisso das deusas foi selado e comemorado com a poesia de Picê.

– Ô de casa para quem é de casa! – bradou Oxalá, da porta da casa de Jaci, esperando a autorização de sua amiga para nela adentrar.

– Acho que a nossa pequena Lua ainda dorme – comentou, sorridente, Emanuel. – A reunião de ontem deve ter rendido muito. Ela não está nos escutando.

Pe-îúr-y-pe? – escutou-se a voz de Jaci, estranhando os amigos estarem na porta de sua casa.

– Não esperava a nossa presença? – estranhou Oxalá, ao encontrar a amiga ainda sonolenta. – Marcamos na semana passada.

– É que pensei em desmarcar e esqueci – desculpou-se Jaci.

– “Aquilo que é, já foi” – brincou Emanuel, citando Eclesiastes. – Podemos remarcar para outro dia?

– Você já me acordaram! Agora aguentem a minha ira – gargalhou Jaci. – Como castigo, vou dar algumas tarefas para vocês.

– Claro que sim! – concordou Emanuel. – É só mandar.

– Pois bem! Decidimos em nossa reunião de que deveríamos intensificar o debate sobre a importante contribuição das mulheres – começou a explicar, Jaci. – Deusas ou não, nós também construímos o mundo espiritual e as coisas terrenas.

– E vocês estão absolutamente certas! – concordou Oxalá. – A invisibilidade das mulheres é uma das formas machistas de dominação. A minha turma também é vítima desse perverso negacionismo. Não se conta a história do meu povo negro.

– Você tem a mais absoluta razão, Oxalá! – constatou Jaci. – Reduzir ou fazer invisível a contribuição da pessoa que se quer dominada é um dos métodos de aprisionamento neste longo processo de dominação.

– Aceitar como legítimo direito pessoal à apropriação das ideias, dos corpos e do destino do outro também – acresceu Emanuel.

– Não ter a consciência de ser escravo é, sem dúvida, um dos maiores aliados de todo sistema escravista – finalizou Oxalá.

– E como poderemos ajudar? – quis saber Emanuel.

– Nós resolvemos ampliar o nosso movimento – respondeu Jaci. - E vocês poderiam sugerir alguns nomes para a próxima reunião.

– Grande ideia, Jaci! “Como é bom e agradável quando os irmãos convivem em união” – vibrou Emanuel, sacando um dos versículos dos Salmos. – Posso convidar várias mulheres. O que acham de Maria, Magdalena, Catarina, Dulce, Clara, Tereza, Paulínia? Aliás, quantas devo chamar?

– Vou perguntar a Açutí – respondeu Jaci. – Ela quem ficou de escrever o roteiro do encontro. E você, Oxalá?

– Você quem me diz quem posso chamar – ponderou Oxalá. – Mas com certeza chamaria Iemanjá, Iansã, Oxum e Nanã.

– Ótimo. Vou perguntar a Açutí e aviso – afirmou Jaci. – Amanhã vou convidar Pachamama. Gosto muito dela.

– Também gosto muito da nossa amiga – concordou Oxalá.

– Então fiquemos assim – encerrou Jaci, com um longo e crescente bocejo. –Ao divulgarmos o trabalho das deusas e das mulheres que ousaram quebrar a estrutura conservadora, vamos contribuir para um debate que ative o motor da reflexão, o combustível da indignação e a ignição da solidariedade entre todas as pessoas que se fazem habitantes do planeta. Somente assim poderemos fazer decolar um novo mundo, onde todas e todos, independentemente do gênero, poderão voar e fazer voar livre a máquina da humanidade.

> Leia mais textos da coluna Parábolas: Emanuel, Jaci e Oxalá.

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