As muitas Therezas

O mês de julho sempre me reporta a momentos importantes da vida. Nele constam aniversários de amigas queridas, que chamo de irmãs, além de ser data de nascimento e perda de meu filho caçula. Nessa mistura de emoções que regem nosso tempo de vida, destaco aqui  momentos de profunda emoção vividos com uma irmã de coração, que me foi dada pelo mundo: Thereza Santos.

Nascida  num 7 de julho de 1930 em Santa Teresa, participou do Partido Comunista Brasileiro, atuando em Angola, Guiné Bissau e Moçambique.

Criada em Santa Teresa, brincava com outras crianças que a chamavam de “verdadeira negra de alma branca”, fato que a deixava curiosa para descobrir como era possível ter uma cor por fora e outra por dentro, já que ser negra não lhe causava qualquer problema, pois sua avô sempre dizia: “Ser negro é motivo de orgulho e não de vergonha!!!”. Fazer perguntas e mais perguntas sem respostas a tornaram “Thereza porquê”, que substituiu seu nome de batismo, Jaci dos Santos, transformando-a em Thereza Santos.

Thereza era escritora e atriz, tendo trabalhado  no Morro da Mangueira onde criou o Departamento Feminino com cinquenta mulheres. Foi eleita secretária- geral executiva e nomeada diretora cultural da Estação Primeira de Mangueira.

Considerou sempre que aprendeu mais sobre o negro lá no morro que em todos os livros que leu. O trabalho cresceu muito e virou um grande sucesso. Em 1969 foi presa pela polícia da Marinha e resolveu fugir para São Paulo, onde descobriu um preconceito mais claro e mais arraigado que no Rio.

Cria em São Paulo uma outra história. Conheceu o sociólogo Eduardo de Oliveira e Oliveira, comprometido com a luta do negro e com quem voltou a trabalhar com teatro. Criaram o Centro de Cultura e Arte Negra e escreveram a quatro mãos a peça “E agora falamos nós” sobre a história do negro no Brasil contada sob a ótica do negro.

Eu,Thereza e uma militante paulista
arquivo Helena Teodoro
Pela primeira vez foi encenada uma peça de teatro escrita por negros brasileiros, sob a direção artística de uma mulher negra e com um elenco de 12 atores negros. Causaram comoção e o espetáculo tornou-se um marco e uma referência para os negros de São Paulo. Tal fato lhe deu certeza de que o caminho a seguir, para a identidade e a autoestima do negro seria através da cultura e o teatro sendo a melhor arma.

Começa a escrever  livros e enredos para as escolas de samba paulistas. Promoveu atividades culturais e movimentos ligados às tradições afro-brasileiras.

Num de seus aniversários, recém deportada de Angola, se vê triste e sozinha em São Paulo. De repente, um toque de telefone faz tudo mudar. Seus alunos, acompanhados dos pais, ligam do outro lado do Atlântico para lhe desejar feliz aniversário.

Eram alunos do curso de teatro, com quem vivera emoções verdadeiras e profundas. Ela havia chegado em 1978, deportada, sem qualquer documento a não ser a carteira de identidade que escondeu em suas calcinhas, descalça, só com a roupa do corpo e a coragem para retomar a vida. Na Polícia Federal teve nova ameaça de prisão por estar sem passaporte. Consegue, no entanto, ligar para casa e pedir apoio da imprensa, que chega. Fotografias, entrevistas, novo tratamento da polícia e, enfim, chega em São Paulo.

Os dias se passam e seu choro era dia e noite. No dia sete de julho, seu aniversário, luta para juntar seus pedaços até o telefonema de Angola. Todos queriam falar, cantam parabéns e durante duas horas passam palavras de ânimo e carinho e informam que estão colocando no oceano, para vir a seu encontro, uma garrafa enfeitada com o nome Theresa Santos e o primeiro pedaço do bolo. Chorou muito depois do telefonema, choro de dor e angústia, mas também de esperança e amor! Descobriu naquelas poucas horas que “TUDO VALEU A PENA”.

Em 1983 surge o Coletivo de Mulheres Negras de São Paulo, com Theresa Santos, que desde o início enfocou a dimensão de tripla discriminação: como mulheres, trabalhadoras e negras,  buscando trazer novas formas de se perceber as mulheres pretas segundo as tradições afro-brasileiras.

Pensando na grande líder quilombola Tereza de Benguela, também conhecida por Tereza do Quariterê, quilombo que se especializou em roupas de algodão pintadas, rendas e tecidos coloridos, resolve criar uma linha de roupas africanas. Suas roupas fazem sucesso e marcam toda a sua maneira de se mostrar e afirmar nossa identidade de mulheres pretas.

Thereza passa a ser assessora da Secretária de Cultura do Estado de São Paulo e eu, assessora do Secretário Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Juntas criamos o Perfil de Literatura Negra em 1988 reunindo escritores negros  brasileiros com africanos dos países lusófonos e norte-americanos.

Conseguimos reunir cerca de 25 escritores estrangeiros como Manuel Rui Monteiro e Pepetela, de Angola, Mia Couto de Moçambique e muitos outros conhecidos fora do nosso país, mas sem nenhuma publicação em editoras brasileiras, apesar de escreverem em português. Realizamos seminários no Rio e em São Paulo, abrindo o mercado literário do país à produção africana.

Participamos da Kizomba com Martinho da Vila, estando com a Unidos de Vila Isabel na conquista do primeiro lugar no desfile das escolas de grupo especial sem usar nenhuma pluma ou paetês.

Apoia na Secretaria de Cultura de São Paulo um bailarino negro chamado Ismael Ivo, que se torna um de seus melhores amigos e que conquistou fama internacional, sendo o primeiro negro a dirigir o Teatro Nacional Alemão em Weimar, vindo em 2017 ao Brasil para dirigir o Balé da Cidade de São Paulo.

Thereza Santos escritora, atriz, professora e ativista pelos direitos das mulheres e da comunidade preta nos deixou a 19 de dezembro de 2012, mas durante todos os momentos de sua vida sempre  contou com a amizade e apoio de Ismael Ivo que, tenho certeza, deve estar a seu lado agora. Já que nos deixou por conta da covid em abril de 2021. Muito grata, Thereza, por tudo que nos legou.

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