2022: terceira via, frente única e o autogolpe de La Mancha

Cléber Lourenço *

A cada semana ficamos mais próximos do pleito eleitoral mais importante desde a redemocratização, certamente será um alambrado entre a civilidade e o descalabro civilizatório que o nosso país vive.

E há algumas coisas interessantes que precisamos prestar a atenção para o pleito que se aproxima. Como, por exemplo, como ficará a indisciplina do generalato? Teremos golpe? O golpe será amanhã? E a frente única? E a terceira via? Vamos juntos entender esses assuntos que estão em alta:

Frente única

A pesquisa da XP divulgada na terça-feira (17), mostra que Bolsonaro perde para praticamente todos os candidatos no segundo turno, com isso, pode ter criado uma espécie de "frente única" informal. Cada um com seus candidatos, mas todos determinados a tirar o presidente do segundo turno.

Também nessa semana, uma matéria do site Poder360 indicou que Gilberto Kassab, o "guru da política brasileira", quer emplacar Rodrigo Pacheco como candidato do PSD para a presidência. Kassab acredita que Bolsonaro poderá sequer disputar o primeiro turno, caso isso ocorra, indica que os esforços do seu partido serão no sentido de removê-lo do segundo turno para disputar contra Lula.

A estratégia foi “consagrada” por uma pesquisa do Poder360, na qual o atual presidente aparece com mais de 60% de reprovação.

Certamente os demais candidatos deverão ir no mesmo sentido. Com isso, a frente única estaria formada com todos os demais candidatos em suas respectivas campanhas, mas em prol de um único objetivo no primeiro turno: um segundo turno sem Bolsonaro.

Terceira via

Mesmo assim, a indefinível “terceira via” segue com uma crônica dificuldade em decidir a sua estratégia e caminhos para seguir, talvez em virtude da sua peculiar composição: majoritariamente ex-apoiadores de Jair Bolsonaro e partidos rachados, uma espécie de sindicato dos frustrados.

PSDB, DEM, MDB, Cidadania, Podemos, PV, Novo, PSL e Solidariedade se reuniram na quarta-feira (18) com a missão de unificar forças contra Lula e Bolsonaro.

A união curiosa é capitaneada por um PSDB rachado por uma penca de facções diferentes e principalmente pela rixa de egos entre Eduardo Leite e João Doria. Mas vamos para a radiografia dos demais:

O Novo é muito imaturo, antipolítico e está tão rachado quanto o PSDB (alguns nomes da sigla negociam uma ida para o PTB); o PSL está determinado lançar candidatura própria, se fundir com o PP e ser uma espécie de novo Arena, tudo isso enquanto lida com o racha interno entre bolsonaristas e arrependidos.

O DEM ainda não sabe se é base do governo ou oposição. O seu líder, ACM Neto, almeja uma candidatura própria do partido para o Planalto enquanto perde seus principais nomes para outras legendas e vê a sigla mais uma vez sendo esvaziada pelo PSD.

De todos os projetos do lulismo, esse foi o que mais se manteve irretocável nos últimos anos, a existência do PSD como elemento desagregador e esvaziador do DEM.

A votação do voto impresso também mostrou uma dificuldade de consensos da bancada do Cidadania; O Podemos ainda sonha com Moro, Huck e um comitê de campanha formado pela Lava Jato. Já MDB está em conversas, mas se aparecer alguma oferta melhor, adeus! Já o Solidariedade e o PV, francamente...

A terceira via deverá sair com umas quatro candidaturas diferentes.

É claro que tudo isso será culpa do Lula.

O autogolpe de la Mancha 

Toda semana o golpe se aproxima, assim como Dom Quixote e suas lutas contra os moinhos de vento, há que veja um rompimento democrático em cada esquina.

Com mais de dois anos de governo Bolsonaro, é flagrante o fato de que este é o presidente mais fraco da história!

Mas, então, por qual motivo ele não caiu? Pelo mesmo motivo! A fragilidade é um banquete de emendas, verbas e cargos para parlamentares.

Que fique claro, não estou criminalizando a política, mas sejamos objetivos: é mais fácil negociar com um político hábil ou com um completo incapaz?

E cada vez que o presidente se arvora em demonstrar uma pseudo-força, passa vergonha, foi assim com o “acabou p*rra”, com o desfile de tanques e uma série de outros episódios.

Tudo isso enquanto seus apoiadores são responsabilizados pelas delinquências que cometem, essa semana mesmo, o “intimidador” general Braga Netto, levou um pito no Congresso Nacional pelas falas e atitudes golpistas dos últimos dias.

Além disso, tivemos seguidas investigações abertas contra Jair Bolsonaro. E o que falar do deprimente “agitador das massas” Sérgio Reis, bastou algumas horas da revelação de suas intenções e ensejos antidemocráticos para que alegasse estar com depressão e sumisse das redes sociais.

Os militares usaram a covid-19 para evitar a realização do corriqueiro desfile de 7 de setembro, decisão que foi tomada após o fiasco da “marcha sobre Roma” que o presidente tentou promover na semana passada.

Já chegou de nos concentrarmos em coisas mais concretas!

Bolsonaro não irá:

- Fechar o Congresso

- Derrubar ministro do STF via Senado

- Dar um golpe

Mas ele e seus ministros querem: precarizar relações trabalhistas (MP 1045), fragilizar a administração e os serviços públicos (PEC 32) e tumultuar a economia com qualquer pauta puxada pelo Paulo Guedes. É ali que mora o perigo, é ali que está o golpe.

Ele já tratou de deixar investidores receosos, perder o endosso de parte do empresariado e colocar a nossa inflação em um foguete para a lua, tudo isso enquanto o desemprego bate recordes.

Para toda aventura do Jair Bolsonaro, há uma carraspana institucional pronta para apertá-lo. A política e a fraqueza presidencial obrigaram Jair a abrigar o Centrão em seu governo e aumentar ministérios, esvaziando a pasta do Paulo Guedes.

Foi no governo de Jair Bolsonaro que deputados e senadores revogaram no voto a Lei de Segurança Nacional, lei que o próprio governo extrapolou na utilização e mesmo assim, gasta bilhões da máquina pública e sofre de maneira descomunal para aprovar projetos.

E os policiais militares? Podem causar algum alvoroço no âmbito estadual, mas dificilmente fariam algo nacional, não há disposição e nem interesse para isso.

A maior prova de que o golpe é um moinho de vento, talvez seja a própria composição do governo que começou com Sergio Moro, juiz da Lava Jato e agora termina com Ciro Nogueira, investigado na Lava Jato.

É um presidente fraco, o golpe será o atalho mais rápido de Jair Bolsonaro e seus partidários para a cadeia.

* Cleber Lourenço é pós-graduando em Jornalismo político. 

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected]

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