11 de setembro: 20 anos do maior atentado no território dos EUA

João José Forni*

O atentado ao World Trade Center (WTC), em Nova York, completa 20 anos neste 11 de setembro. Foi o maior ataque sofrido pelos Estados Unidos em solo pátrio, superando em número de vítimas o célebre bombardeio japonês a Pearl Harbour, que matou 2.403 americanos, em 1941, estopim para a entrada dos EUA na II Guerra Mundial. No WTC houve 2.996 vítimas fatais e mais de 6 mil feridos.

Passados 20 anos, muitas perguntas sobre o atentado continuam sem respostas, principalmente as que buscam entender como os EUA, tão preparado para ataques externos desde a Guerra Fria, permitiram que 19 terroristas se apossassem de quatro aviões e cometessem os atentados, sem qualquer tipo de reação. Até hoje, restos mortais de 1.106 vítimas do WTC não foram encontrados, o que não permitiu às famílias terem uma cerimônia de despedida.

Os 20 anos do atentado coincide com a retirada dos EUA do Afeganistão, guerra que começou logo após os atentados, atribuídos à Al Qaeda, organização terrorista liderada por Osama bin Laden. Ele foi morto pelos EUA, no Paquistão, em maio de 2011, meses antes dos 10 anos do atentado. A saída atabalhoada e criticada dos EUA do Afeganistão, agora, deixa um ranço de derrota aos invasores, porque, após 20 anos de guerra e gastos que giram entre US$ 2 a 3 trilhões, os americanos deixaram o território livre para o avanço e a posse da organização terrorista Talibã, exatamente aqueles que expulsaram, quando invadiram o país, em 2001. Grande parte do arsenal bélico dos EUA no Afeganistão ficou lá. E os talibãs já estão usando.

Sinais que não foram levados em conta

Quanto ao WTC, os Estados Unidos tinham no radar a informação de que um grande atentado poderia ocorrer no país ou fora dele, em 2001. Vários incidentes precederam o ataque de 2001, incluindo um atentado a bomba ao próprio World Trade Center, em 1993. Após esse ato, houve atentado às Embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia, em 1998; e o atentado suicida ao destroyer USS Cole, da Marinha dos EUA, quando ele estava reabastecendo no porto de Áden, no Yemen, em 2000, todos com mortos e feridos. A CIA, diz o jornal USA Today, tinha monitorado alguns dos suicidas de 11 de setembro, nos Estados Unidos, como potencial ameaça, mas as autoridades nunca levaram a sério a informação.

Em 2011, publicamos neste site um artigo “O atentado de 11/09 sob a ótica da gestão de crises”, baseado em um documentário "State of Emergency", divulgado na época pela CBC News, canal de TV canadense. As perguntas que se faziam, então, o histórico das falhas, os heróis e a análise da desarticulação da defesa americana continuam válidos. Até porque a ameaça continua, principalmente na Europa, na Ásia e na América do Norte. O terrorismo, embora tenha sido meio contido, com a pandemia, não acabou. Pode ter entrado numa fase de rearticulação. Está hibernando. Se nas décadas de 1950 a 1970 a Guerra Fria era a grande ameaça ao mundo, numa disputa pela hegemonia global entre Estados Unidos e a então União Soviética, a partir da década de 1990, com a dissolução do império soviético, o terrorismo passou a ser o maior perigo a assombrar as potências mundiais. Vale a pena recordar o que houve em 2001 e como essa crise foi gerenciada.

O atentado de 11/09 sob a ótica da gestão de crises

A cada data marcante, 5, 10, 15 anos, depois do maior atentado terrorista da história, inúmeras análises são publicadas sobre aquele ousado atentado, no coração da cidade ícone americana, Nova York. Em qualquer cidade dos EUA seria, sob qualquer aspecto, uma barbárie. Mas ali, na “Big Apple”, foi um desafio. A história dos sobreviventes; das empresas que funcionavam naqueles prédios atingidos pelos aviões, ainda é contada. Mas convém analisar o atentado também sob uma outra ótica. Como os americanos conduziram essa tragédia, sob os preceitos da gestão de crises? E o que esse ato representou para a história americana. Resultados de uma pesquisa recente do USA Today/Gallup são surpreendentes. Cerca de 60% dos americanos dizem que os ataques mudaram permanentemente a maneira como o país vive, mais do que o número que se sentia assim no décimo aniversário.

Um país sempre preparado para a guerra, para o confronto, aparelhado desde os tempos da Guerra Fria para reagir a qualquer ataque dos inimigos do Oriente. Assim eram os Estados Unidos até 11 de setembro de 2001.

O que aconteceu à grande potência bélica mundial, a mais poderosa máquina de guerra do planeta? Surpreendido por um grupo de fanáticos, ficou horas à mercê de ataques, sem saber de onde partiam. O Presidente Bush, tão surpreso quanto qualquer cidadão americano, de certo modo acuado na Flórida, teve que decolar e manter-se no ar, no Force One, para evitar um possível ataque terrorista em solo, até porque ele não sabia a dimensão da ameaça. Esse “gap” nos mecanismos de defesa americanos e, principalmente, da inteligência do serviço secreto dos EUA, considerado um dos melhores do mundo, permitiu que apenas 16 fanáticos religiosos produzissem o maior atentado terrorista da história e o maior ataque aos Estados Unidos, em tempos de paz.

Vamos analisar, agora, o atentado de 11 de setembro, sob o enfoque da gestão de crises.

O planejamento

O atentado de 11 de setembro, que matou cerca de três mil pessoas, começou a ser planejado em 1993, depois de uma explosão no próprio World Trade Center. A ação fracassada da década de 90 deveria destruir as torres gêmeas e deixar mais de 250 mil mortos, mas vitimou apenas seis pessoas. Esse fracasso empurrou o grupo extremista para o planejamento de um atentado mais violento e o alvo passou a ser as torres gêmeas, segundo depoimento de prisioneiros da base aérea de Guantánamo. Aqui, poderíamos especular, por que o serviço secreto americano não levou a sério essa apuração?

Ataque de 11 de Setembro nos Estados Unidos <div class='fotografo'> Fotos Públicas</div>Ataque de 11 de Setembro nos Estados Unidos
Fotos Públicas
“O plano de ataque de 11 de setembro foi apresentado a Khaled Sheikh Mohamed (KSM) por Ramzi, que já havia tentado explodir as torres, e seu amigo Abdul Murad. A intenção era transformar aviões em mísseis para destruir os dois prédios”. A informação é do escritor Ivan Sant'Anna, autor do livro "Plano de Ataque".

O relatório oficial do Congresso norte-americano sobre o atentado, “The 9/11 Commission Report”, diz que foi apenas em 1999 que KSM se filiou formalmente à Al-Qaeda e Osama bin Laden deu sinal verde para a ‘Operação Aviões’. Começaria então a escolha dos pilotos e demais suicidas que participariam da missão que tinha tudo para dar errado.

Segundo Sant"Anna, “O 11 de Setembro contou muito com o fator sorte. Inicialmente Osama Bin Laden queria que participassem da missão apenas nascidos em Meca, mas seria inviável conseguir homens dispostos, e que tivessem conhecimento suficiente para pilotar as aeronaves. Aí entra a sorte. Quatro homens de nível universitário, que moravam em Hamburgo, na Alemanha e, portanto, dominavam o inglês, foram recrutados para lutar na Chechênia e acabaram integrando a Operação Aviões”.

Toda essa fase de planejamento não foi detectada pelo serviço secreto americano. Mas o pior ainda estaria por vir. Os principais líderes da operação, que depois comandariam os aviões, entraram nos Estados Unidos livremente e se matricularam em escolas de pilotagem na Flórida. Ninguém desconfiou, ninguém monitorou. Até hoje não foi bem explicado, porque a CIA, no governo Bush, teria recebido alertas de que terroristas haviam entrado no país, e não levou a sério esses avisos. Ou seja, era possível, com um eficiente sistema de inteligência, ter prevenido e certamente evitado um possível atentado terrorista, em 2001. A facilidade com que eles passaram pela triagem no aeroporto de Nova York e entraram nos aviões, com armas, levou os EUA a rever todo o esquema de triagem de trânsito nos aeroportos, rotina que foi disseminada para o exterior. Antes de 11 de setembro, não apenas a Administração de Segurança do Transporte não existia, mas a segurança do aeroporto era uma pálida sombra da operação que vemos hoje. Menos de 10% das malas despachadas eram rastreadas naquela época. O escritor Nassim Taleb, autor do clássico "A lógica do Cisne Negro: o impacto do altamente improvável"**, discorda de que o atentado poderia ser previsto e o considera realmente um "cisne negro", acontecimentos improváveis, muito difíceis de prever e, consequentemente, se preparar para eles.

Sucessão de erros

O ousado ataque, utilizando aviões como mísseis, pegou de surpresa toda a defesa americana. A exemplo do que aconteceu na Noruega, em 2011, quando um fanático norueguês comandou uma explosão no centro da cidade, que matou sete pessoas, e, a seguir, se dirigiu para uma ilha, onde havia um congresso político, e com um fuzil matou mais 69 pessoas, a maioria jovens. Pegou um país, até então pacífico e seguro, de surpresa. Assim também com as defesas americanas, em setembro de 2001. Elas, teoricamente, estavam voltadas para o exterior, de onde poderiam vir ataques terroristas. E, provavelmente, não estavam prontas para enfrentar um ataque dentro do país. O mais criativo diretor de Hollywood jamais bolou um enredo tão ousado, que simulasse a destruição de prédios que eram um ícone de Nova York: as duas torres gêmeas do World Trade Center.

Naturalmente, segundo o escritor Ivan Sant'Anna, o dia de céu aberto e limpo, naquela terça-feira, 11 de setembro de 2001, também seria determinante para o “sucesso” dos ataques. Com tempo nublado, talvez os pilotos inexperientes não conseguissem atingir seus alvos. Pilotos experientes asseguram que não seria tarefa fácil pilotar um Boeing entre arranha-céus, como o local do ataque, na Ilha de Manhattan, e acertar o alvo, como aconteceu com pelo menos dois grupos de terroristas, exatamente os que atingiram o World Trade Center em horários diferentes. Pelo menos esses dois ataques com aviões foram muito bem planejados e acertaram o alvo, o que não se pode dizer o mesmo com os outros dois aviões, um deles que caiu, atingindo o Pentágono; e outro, com 40 passageiros, mais a tripulação, que caiu na Pensilvânia, o caso mais misterioso, do famoso voo 93, da United Airlines.

A força aérea americana também foi colhida de surpresa. O treinamento dos pilotos era para neutralizar sequestradores que pousam aviões e exigem resgate. Não para ataques suicidas. Uma pergunta que todos fizeram: por que esse cenário nunca foi contemplado nas simulações de crises das forças de defesa americanas? Teria havido aí uma falha grave de gestão de riscos, portanto?

Nesses momentos de crises graves, em que os dirigentes são surpreendidos e ficam batendo cabeça, aparecem mentes lúcidas, executivos ousados que acabam tomando as decisões mais importantes. É o caso de Ben Sliney, chefe do controle aéreo (civil) dos Estados Unidos, no dia 11 de setembro (esse cargo não existe no Brasil). Era o primeiro dia de trabalho do novo controlador-chefe, que pode ser colocado hoje na galeria dos heróis nacionais daquela tragédia. Ele tem o comando sobre todos os voos de aviões do transporte aéreo americano.

Ele recebe um comunicado de outra heroína, a aeromoça Betty Ong, comissária que avisa sua empresa, a American Airlines, de que o voo 11 acabara de ser sequestrado: “Ninguém atende o telefone na cabine do piloto. Alguém foi esfaqueado na classe executiva e estamos com dificuldade para respirar aqui na executiva, eu acho que usaram spray de pimenta, ou algo. Não conseguimos respirar, mas eu acho que estamos sendo sequestrados”, diz a comissária para o controle da sua empresa, a American Airlines.

Ao receber a informação do FBI, repassada por Betty Ong, Ben Sliney, sem consultar qualquer autoridade, até porque o presidente Bush estava incomunicável, e a Secretária de Defesa, Condoleezza Rice, estava protegida num ‘abrigo” na Casa Branca, tomou a ousada e corajosa decisão de interromper todo o tráfego aéreo do país.

“Havia 4 mil aviões no ar. Tinha uma ameaça, mas os Estados Unidos não sabiam o tamanho da ameaça”. Ele então ordenou que todos os aviões no ar, aterrizassem, e nenhum aparelho em terra poderia mais decolar. A intenção era só deixar no ar os aviões dos terroristas. Foi a primeira iniciativa lúcida daquela manhã, dizem os especialistas.

Na Flórida, o Presidente Bush foi avisado pelo seu staff do tamanho da encrenca, quando estava numa escola pública, escutando a leitura de crianças. O olhar estupefacto de Bush, no momento em que recebe o aviso, flagrado por um canal de televisão, é daquelas cenas históricas antológicas, que entram para o tragicômico anedotário mundial. É um olhar de espanto, surpresa e insegurança, ao mesmo tempo.

Depois dos primeiros momentos de estupor, o Presidente recebeu a orientação de decolar imediatamente. Antes, porém, seu staff preparou um “News Statement”. Bush lê rapidamente para a imprensa o Comunicado, sem aceitar perguntas. Era o máximo que o presidente poderia dizer àquela altura, porque nem ele, nem seu estado maior tinham uma dimensão exata do que estava acontecendo no país. Nesse momento em que Bush estava falando, um dos quatro aviões sequestrados ainda voava sem ser monitorado pelos radares, o United 93, que cairia na Pensilvânia.

Bush queria voltar para Washington, para comandar a defesa. Mas Condoleezza Rice disse ao Presidente: “Você não pode voltar para Washington”. Logo após, um presidente acuado decola sem destino. A operação evasiva do avião presidencial Force One era para evitar um ataque em terra. A maior potência do mundo se curvava à ameaça de um punhado de terroristas.

Cenário devastador

No World Trade Center reinava o caos, com os dois prédios em chamas. Pessoas corriam para todos os lados, sem saber de fato o que estava acontecendo. Entendiam agora que os Estados Unidos estavam sob ataque. Em Nova York, o chefe dos bombeiros, mesmo avaliando os riscos da operação, tomou outra decisão certa: entrar no prédio. “Um prédio queimando é um prédio em demolição”, disse o comandante. Mas a obrigação dos soldados do fogo era tentar salvar o maior número de pessoas no incêndio, até porque havia dezenas, se não centenas, de pessoas pedindo para serem resgatadas. Essa operação ousada de entrar nas torres em chamas custaria a vida de 373 bombeiros, sepultados quando as duas torres caíram.

Ataque de 11 de Setembro nos Estados Unidos <div class='fotografo'> Fotos Públicas</div>Ataque de 11 de Setembro nos Estados Unidos
Fotos Públicas
Mas nas torres de controle dos aeroportos americanos, ainda sem saberem a extensão dos ataques e quantos aviões haviam sido sequestrados, fazia-se a seguinte pergunta: onde estão nossos soldados? Dois caças F16 recebem ordem para partir para Washington, para defender a capital. Como ocorreu isso? Ao ouvir a mensagem de um terrorista, que por engano havia apertado o botão errado, o controlador de voo Peter Zalewski reporta o sequestro do avião para o Setor de Defesa Aérea Noroeste (Neads). O órgão mobiliza jatos da Força Aérea, para localizar e seguir o avião da American Airlines. Isso teria ocorrido às 9h37 (O primeiro avião atinge o WTC às 8.46am e o segundo às 09.03am). Mas os pilotos foram treinados para se defender do inimigo que vem pelo mar. E nessa direção eles voam. Ou seja, seguem os procedimentos da Guerra Fria, em que o inimigo vem de outros continentes. E, certamente, não perceberam onde estava o avião sequestrado, que já tinha atingido o WTC.

Os caças estavam prontos para se defender de um ataque aéreo russo e não de terroristas, voando baixo, entre os prédios da maior cidade americana. É surpreendente, mas 22 anos após a queda do muro de Berlim, seguida do fim do comunismo e a dissolução da União Soviética, os radares das defesas americanas ainda estavam mirando ataques da Rússia e seus satélites. Enquanto isso, o terceiro avião, o American Airlines 77, voa em direção a Washington, sob o desespero das torres de controle, que não o detectavam porque o transponder (aparelho que permite detectar um avião no ar) estava desligado pelos terroristas.

Falha no sistema de defesa

A ordem para os caças voltarem veio do Comando de Controle do Tráfego Aéreo: “Voltem já e voem com toda velocidade para a Casa Branca”. O alvo do voo 77, no entanto, é o quartel general da defesa americana, o Pentágono, onde trabalham 23 mil pessoas. Não se sabe por que, o avião erra o alvo. O objetivo, provavelmente, era atingir em cheio o prédio. Ele mergulha antes e destrói uma parte do prédio, matando mais 184 pessoas.

Ao destruir parte do Pentágono, os terroristas expuseram uma grave falha de defesa do comando militar americano. O quartel general de defesa dos Estados Unidos era um alvo fácil, assim? Atordoados pelo ataque, os comandantes militares não sabem o que fazer. Incrível isso, num país que já participou de várias guerras. Segundo o documentário "State of Emergency", “anônimos assumem a defesa”. Mesmo com a ordem do comandante militar de ninguém entrar no prédio, parcialmente destruído pelo fogo, alguns heróis arriscam a vida e voltam ao edifício para salvar os colegas sobreviventes.

Em Washington, com o governo em crise e praticamente sem comando, Condoleezza Rice resolve levar as autoridades para o abrigo antibombas, um bunker construído para a eventualidade de um ataque nuclear, a 30 metros de profundidade. “Não achávamos que o bunker fosse seguro naquela hora”, disse a ex-Secretária de Estado. A pergunta é, como organizar uma reação se não se sabe onde está o inimigo e qual o seu potencial? Nem a Força Aérea sabia quem defender e quem atacar.

Nesses momentos de crise e conturbação, em que a maioria das autoridades está atônita ou em pânico, proliferam os boatos. Rumores de novos sequestros inundam as comunicações e congestionam as linhas, tanto das autoridades, quanto dos controles de tráfego aéreo. “Apesar de toda a hierarquia, a cadeia de comando, os equipamentos sofisticados, nada funcionava. Tivemos que improvisar”, diz Condoleezza. Ou seja, o pânico e a desinformação se espalham pelo país. A confissão da toda poderosa Secretária de Estado de George Bush, nos dez anos do atentado, foi o reconhecimento tácito de que não havia plano de prevenção e o país não estava preparado para um ataque.

Bush tomava conhecimento dos acontecimentos no avião presidencial, que continuava fazendo manobras evasivas para evitar um ataque. As decisões são tomadas por outras autoridades. A insistente ordem de Ben Sliney “Nenhum avião pode ficar no ar”, começou a ser obedecida e surge um novo problema. Onde pousar tantos aviões. Aeroportos começaram a ficar congestionados. Os aviões em rota internacional para os Estados Unidos recebem ordem de voltar ao destino e centenas de viagens com destino aos EUA são abortadas. No Brasil, a Infraero precisa encontrar lugar nos aeroportos para os aviões internacionais que retornam ao país, depois de terem decolado.

Mas enquanto o United 93 voava para a Capital, o chefe dos controladores não sabia onde estavam e o que faziam os militares. Desconhecia também o destino do Presidente Bush. Então, surgem outros heróis anônimos nesse 11 de setembro. Um dos passageiros do voo 93 liga para a esposa e fica sabendo dos atentados. E conclui que seu voo também era um avião suicida, com algum destino especial.

Ao perceber que o avião se dirigia para Washington, a ordem para os caças foi: derrubar o voo United 93. Gravações liberadas depois de dez anos do atentado, pelo controle do tráfego aéreo, mostram a voz desesperada de um piloto dizendo aos colegas no dia 11 de setembro de 2001: “O comandante da região declarou que podemos abater os aviões que não respondem às nossas ordens, entendeu?"

Como assim? Derrubar um avião de passageiros? Todos sabiam que era uma decisão difícil, mas, considerando que o país enfrentava uma crise grave, ou melhor, sofria um ataque, algumas soluções acabam redundando na máxima do ex-CEO da GE, Jach Welch, quando fala de crise, num dos seus últimos livros*: “Quase nenhuma crise termina sem sangue no chão”. Se o avião era uma ameaça, por que não derrubar? “O Presidente autorizou interceptar e derrubar, se não responderem”, diz o comandante dos caças.

Condoleezza Rice, ao perceber que o ataque que o país sofria vinha de dentro, e não de inimigos externos, e os Estados Unidos mostravam-se despreparados para isso, dez anos depois ela conta que concluiu: “Nesse momento eu entendi que a Guerra Fria tinha acabado”.

O despreparo militar

Marc Sasseville, piloto de caça, recebeu a ordem para abater o avião, mas o F16 dele não estava preparado para o combate. “Não tinha tempo para carregar os mísseis no avião. Eu só tinha munição de treinamento, que não explode no impacto. Sem os mísseis, o único jeito de derrubar o avião seria usando minhas asas para bater nele, abrindo um rombo, batendo no avião”. Ou seja, era quase uma missão suicida. Consumada a batida, seria muita sorte conseguir sair no assento ejetável.

Na falta de líder ou comandante lúcido, para comandar a crise, e de aviões militares preparados para o ataque, a reação, ainda que desesperada, veio dos passageiros do voo United 93. Pelo menos dois passageiros lideraram a reação, que impediria o avião de atingir algum alvo em Washington. Especula-se que seriam os edifícios do Capitólio ou da Casa Branca. Nunca se saberá. O governo, a princípio, disse que foi a Força Aérea que havia abatido o United 93. Porém, isso nunca foi confirmado, nem desmentido.

Mas foram heróis anônimos, a começar pelo papel da aeromoça Betty Ong, que ligou para a American e foi das primeiras vítimas no voo AA 11, que atingiu o WTC, às 8h46. Os passageiros do voo 93 foram os primeiros americanos a reagir fisicamente e com ações concretas ao ataque do 11 de setembro, frustrando o objetivo dos terroristas. Pouco se sabe o que aconteceu dentro do avião. Mas pode-se imaginar. Segundo relatos vazados de celulares das vítimas, diante da reação violenta dos passageiros, os pilotos terroristas perderam o controle e o avião caiu numa zona despovoada de Shanksville, na Pensilvânia. Não há dúvida de que ele caiu por iniciativa dos passageiros. Nesse acidente, morreram 40 pessoas e mais a tripulação. “Pessoas comuns, que quebraram regras, fizeram a diferença no 11 de setembro”, conclui o documentário da CBC.

"O que parecia inimaginável - um ataque terrorista sem precedentes em solo americano, atingindo o coração da sociedade e testemunhado nas telas de televisão ao redor do mundo - foi um choque que o país ainda não absorveu", conclui o repórter Greg Milam, da Sky News, 20 anos depois.

*João José Forni é jornalista e especialista em comunicação empresarial e gestão de crisesgestor de crises. Autor do livro Gestão de Crises e Comunicação.

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