Quando a verdade acaba, basta fabricar outra 

Em 1944, na revista britânica Tribune, George Orwell defendeu a tese de que a história é contada pelos vencedores. O genial escritor, autor de clássicos como “1984” e a “A Revolução dos Bichos” não viveu no mundo da internet e das redes sociais, embora tenha antevisto uma sociedade dominada tecnologicamente por um poder onipresente, capaz de controlar e espionar em tempo real os atos de todos os cidadãos.

Sim, naquele momento, Orwell tinha razão. Afinal, até o início do século passado, na maioria das vezes os vencidos eram simplesmente eliminados nas guerras pelos vencedores. Logo, sequer havia qualquer chance de os vencidos formularem sua narrativa. Só prevalecia a dos vencedores. A frase de Orwell – “a história é contada pelos vencedores” – vem sendo atribuída pelos pensadores de direita a uma suposta visão marxista que teria sido repetida e introjetada a diversas gerações de estudantes por professores comunistas ou simpatizantes de Marx. Grossa falácia. Na verdade, o que os historiadores vêm fazendo desde sempre é construir uma narrativa equidistante e isenta, embora as fontes de consulta, muitas vezes, tenham sido simplesmente destruídas pelos vencedores.

Um novo ingrediente: as fake news 

Mas, se a história que se assentou como verídica e crível sempre resultou desde sempre de um conflito de narrativas, nos tempos atuais ela ganhou mais um ingrediente além de vencedores e vencidos: a versão das mentiras espalhadas na velocidade da luz a milhares de destinatários em escala planetária, as fake news.

As notícias falsas passaram a ser usadas não apenas pelo voluntarismo de alguns internautas interessados em fazer prevalecer sua versão dos fatos, mas ultimamente vêm sendo empregadas como eficientes armas na guerra de versões. Com uma agravante perigosíssima: o emprego dos bots – conhecidos como robôs, que são programas implantados nos computadores para realizar tarefas repetitivas e automatizadas. Tal prática permite que uma informação falsa seja distribuída automaticamente a milhões de destinatários por remetentes igualmente falsos. Pesquisa da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, em 2017, concluiu que 15% do total de perfis do Twitter eram falsos e compostos por bots.

A fábrica de mentiras do Palácio do Planalto 

Por aqui, a prática criminosa da disseminação de informações falsas com uso de robôs a partir do Palácio do Planalto para dar sustentação ao governo Bolsonaro tem sido denunciada e o chamado “gabinete do ódio” vem sendo investigado há muito tempo. Mas até agora as investigações não produziram rigorosamente nada contra o presidente, seus filhos e seguidores. Parece haver uma certa complacência com os chamados crimes cibernéticos, ainda que haja farta comprovação de sua gravidade, que muitas vezes ultrapassa em alcance e profundidade os crimes considerados comuns.

O impulsionamento de informações falsas por robôs tornou-se prática habitual do governo Bolsonaro. Só pra dar uma ideia: março passado foi o mês em que a popularidade do presidente e de seu governo despencaram aos mais baixos níveis. Causas: explosão de mortes pela covid, falta de vacinas e instabilidade política gerada pela mudança de comando no Ministério da Defesa, entre outras. Pois justamente neste mês, levantamento realizado pela plataforma Bot Sentinel, uma agência que analisa publicações realizadas por contas inautênticas ligadas a robôs nas redes sociais, identificou um crescimento de 273% em relação ao mês anterior. O que revela com nitidez o apelo ao mecanismo dos robôs como arma para elevar os níveis de popularidade do presidente, mesmo à custa de informações falsas ou distorcidas para enaltecer seus atos.

Querem mesmo investigar ou apenas fingir que investigam? 

O senador Humberto Costa, do PT de Pernambuco, pediu ao Ministério Público que apure o uso de dinheiro público na contratação de empresas que atuam com uso de robôs. Ele quer saber se há parlamentares federais financiando a rede de informações falsas. Ou aportes financeiros de algum ministério, de empresas públicas ou mesmo dos cartões corporativos da presidência da república. Uma investigação importante, sim, mas que apenas tangencia o problema, uma vez que, se a fonte de financiamento é pública – e portanto é criminosa -  mais importante do que isso são os efeitos devastadores de tais publicações na formação da opinião pública.

Numa atualização ligeira da frase de George Orwell, o que aparece com absoluta clareza é a tentativa dos “vencedores” (os detentores do poder) de impor sua narrativa. Os recursos de checagem da ampla maioria da população atingidas pelos disparos falsos dos robôs são mínimos ou simplesmente inexistem. O que resulta numa manipulação maciça da opinião pública em favor de um governo que não hesita em se utilizar de recursos criminosos para lhe garantir sustentação popular. Se houvesse real interesse em identificar e punir os responsáveis, bastaria contratar universidades e agências especializadas, capazes de rastrear e apontar com precisão a origem dos disparos falsos e dos robôs impulsionadores. Basta querer. E aqui está a pergunta essencial: será que querem investigar? Ou querem apenas fingir que investigam?

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