Os subtextos do discurso bolsonarista

A coluna de hoje tem por base um pouco da teoria da análise do discurso, conteúdo obrigatório dos estudos de narratologia. O discurso de Bolsonaro é o que se pretende analisar, a partir de alguns poucos exemplos. O capitão é insuperável nas narrativas fantásticas que inventa diariamente, seja para atacar quem se interponha aos seus propósitos golpistas, seja para justificar atos ou omissões perigosas e até letais, como a negação da eficácia das vacinas ou a clamorosa insistência em não usar as máscaras – duas ações essenciais no combate à pandemia. Como não conhece patavina da liturgia do cargo que ocupa nem faz a menor ideia do “efeito-exemplo” de seus atos e palavras, não fica um dia sequer sem inverter a ordem e tentar emplacar as versões fantasiosas que defende e propaga.

A última pérola dessa coleção de sandices foi proferida num discurso em Cuiabá. Numa inacreditável inversão dos fatos, o capitão teve a coragem de afirmar a existência de uma “ditadura branca” no Brasil, seja lá que diabos essa tal de “ditadura branca” possa ser. Prometeu, como se isso significasse alguma coisa, que “não haverá ruptura” de sua parte, mas lembrou que “o provocam o tempo todo”.

Os subtextos  

Há dois subtextos a serem desvelados aí. O primeiro é que os esforços, principalmente por parte do Judiciário, mesmo que ainda tímidos, vão, isto sim, no sentido de conter seu ímpeto golpista, ou seja, impedi-lo de implantar uma ditadura no Brasil, como seria de seu gosto, pois não cansa de revelar seu saudosismo dos anos de chumbo. E não de implantar essa tal de “ditadura branca” a que se refere. Ou seja: nas suas provocações, Bolsonaro inverte a equação e se coloca na posição de vítima de um eventual golpe do Judiciário para a implantação de uma ditadura. O segundo subtexto, ao lembrar que “o provocam o tempo todo” é o de que promete não patrocinar ruptura, sim. Mas pode patrocinar, sim, a ruptura, se não pararem com as provocações que diz sofrer.

Neste mesmo rumo, numa postagem em rede social, referiu-se a um tal "anti-golpe", com a clara intenção de se colocar na posição de vítima diante de um golpe que o retiraria do poder. E há quem acredite nessa versão, por mais fantasiosa e mal intencionada que ela seja.

Na mesma toada, Bolsonaro também inverte a equação, ao acusar o TSE de desmonetizar no Youtube canais bolsonaristas que propagam fake news sobre o sistema eleitoral, divulgam informações falsas sobre fraudes supostamente advindas da urna eletrônica (sem nenhuma prova) e por isso defendem o retorno do voto impresso. Acusa o TSE de estar realizando um “cerceamento das mídias sociais”. A equação está invertida porque a Justiça Eleitoral, em momento algum, patrocinou qualquer cerceamento dessas mídias, pelo contrário. Vem trabalhando, a nosso ver ainda de forma tímida, para reduzir a propagação de informações falsas que possam tumultuar o ambiente eleitoral e gerar desconfianças, justa e precisamente o que Bolsonaro e os integrantes da chamada “milícia digital bolsonarista” vem fazendo. E justamente por essa razão, canais do Youtube pilotados por radicais da extrema direita como Allan dos Santos, do Terça Livre, foram tirados do ar por determinação judicial.

Liberdade de expressão ou liberdade de agressão? 

Bolsonaro e sua turba de radicais não param de acusar a estrutura judicial de cerceamento da liberdade de expressão. Mais uma vez inverte os papéis. Não existe garantia de liberdade de expressão para quem ataca a estrutura democrática e os poderes constituídos. Uma coisa é a crítica, e outra coisa, bem diferente, é a acusação leviana e rasteira, feita no mais das vezes com uso de expressões de baixo calão como as utilizadas por Allan dos Santos. A liberdade de expressão não é garantida para tal prática. Num dos últimos ataques ao ministro Luiz Roberto Barroso – que Bolsonaro vem tentando afastar por impeachment do cargo de ministro do STF e da presidência do TSE. Allan desceu o nível ao palavreado chulo dos botequins de terceira categoria: Num post intitulado “Barroso é um miliciano digital”, partiu para a baixaria mais torpe: “Tira o digital, se você tem culhão! Tira a porra do digital e cresce! Dá nome aos bois! De uma vez por todas, Barroso, vira homem! Tira a porra do digital! E bota só terrorista! Pra você ver o que a gente faz com você! Tá na hora de falar grosso nessa porra!”. Só pra lembrar, Allan dos Santos está sendo duplamente processado no STF: por atuação em milícias digitais e por participar do financiamento de atos antidemocráticos.

Traduzindo: Bolsonaro, na inversão dos papéis, prende-se à garantia da liberdade de expressão para assegurar impunidade a ele próprio a aos seus seguidores pelos seguidos ataques, ofensas e calúnias (“aquele fdp!” (para Barroso); “Vagabundo” (contra Renan Calheiros); “Traficantes” (contra ministros do Supremo), entre outras, algumas tão escatológicas que é melhor ficar por aqui.

Há um outro exemplo eloquente da inversão do discurso e da prática de Bolsonaro. Diante da enxurrada de pedidos de impeachment que já foram apresentados contra ele, Bolsonaro não tenta apresentar qualquer argumento de defesa. Quando não parte para a baixaria, sua reação é tentar inverter a equação, ameaçando ministros do Supremo de impeachment. Instrumento que já foi utilizado duas vezes no Brasil para afastar presidentes – Collor e Dilma – mas nunca prosperou nem sequer chegou a ser apresentado contra qualquer integrante do STF.

Nessa inversão de discurso e ação, Bolsonaro posa de vítima e de injustiçado. Mas não é nem uma coisa nem outra. Não passa de um despreparado, radical de direita posando de vítima e de injustiçado. Nada além.

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