De minha janela vejo uma bandeira triste

Da minha janela posso ver, no prédio em frente, pendurada na janela, uma bandeira brasileira trêmula e triste. O verde esmaeceu, tornou-se um cinza sujo, mal se vislumbra o verde que houve ali um dia. Tem a cor de desolação do que restou de uma queimada na Amazônia. O amarelo, igualmente sujo, resiste, mesmo espantado. Um amarelo de medo. Dá ainda pra perceber o que restou do azul, um azul de raiva, um azul imundo, coberto de rajas de poeira e descaso. E o branco, pálido de espanto, mal serve de fundo ao dístico esperançoso de um país onde deveria reinar um dia a ordem e o progresso.

Reparando bem, aquela bandeira na janela do prédio em frente não é bem uma bandeira, não passa agora de um pano roto, melancólico, abatido, esquecido do que já foi e do que já simbolizou. Nada tem a ver com o pavilhão alegre e eufórico de outros tempos, que tremulava ao vento dos trópicos, e acendia no coração a reverência infantil do amor à pátria, do orgulho de pertencer a um país tropical lindo e moreno, abençoado por Deus e bonito por natureza, como bem celebrou Jorge Ben.

A bandeira triste, aquela que vejo da minha janela, exposta em triunfo por alguém que cultua o ódio em vez da alegria, o descaso com a dor das famílias que perderam seus entes queridos em vez da mão do consolo e da esperança – aquela não é a minha bandeira. Aquele pano roto e trêmulo de cansaço e medo, apropriado por uma massa de inocentes úteis a serviço de um populista ridículo, vocacionado a ditador, definitivamente não é a minha bandeira.

Pois minha bandeira não cabe na mão de quem se apropria de suas cores para fazer a apologia do terror e de um patriotismo de fancaria,  vazio de ideias e de propósitos. A bandeira que um dia já foi minha e que emocionou profundamente o menino que já fui é outra, bem diferente. Só de lembrá-la já me emociono, saudoso.

Porque minha bandeira é a de um país onde seus dirigentes se dão ao respeito e exercem a administração e a política com cuidado de pai e sabedoria de mestre. Minha bandeira não serve de apanágio a quem desrespeita os outros poderes e seus integrantes, se utiliza de palavras chulas, sujas e sórdidas, dessas proferidas nos botequins pé-sujos, que achincalham tanto a nobilíssima atividade da política a ponto de rebaixar o pavilhão nacional ao nível da lama e da infâmia.

Minha bandeira, aquela que aprendi a reverenciar quando era hasteada ao som do hino nacional nos meus tempos de menino, é uma bandeira festiva e feliz, símbolo e slogan de um povo vocacionado ao gingado e à alegria. Minha bandeira, percebo agora, é aquela dos heróis olímpicos, e também a dos heróis anônimos, esses que batalham todo dia pra por o feijão na mesa, e só se vestem de verde-e-amarelo quando o Brasil ganha mais um campeonato. Definitivamente, minha bandeira não é a dos idiotas que correm atrás de um motociclista que circula impunemente com sua soberba Harley Davidson sobre mais de meio milhão de sepulturas.

Daqui de onde escrevo, posso ver aquela bandeira maltratada e sinto uma dor profunda por tudo o que meu país poderia ter sido e que não foi. E que ainda vai demorar tanto, tanto e tanto a ser. Por trás da bandeira enxovalhada e triste que vejo daqui dá pra perceber nitidamente as milhares de mentiras inventadas diariamente em seu nome. Tais como essa falácia da insegurança das urnas eletrônicas, da volta do voto impresso e do desprezo à eficácia das vacinas. Causa-me uma revolta profunda saber que houve um imbecil de tamanha estatura capaz de, à luz da bandeira e do que ela significa, elevar postumamente ao posto de marechal um torturador conhecido e execrado, cujo lixo não serve nem à reciclagem.

A bem do momento, não vejo sentido nesse fervor religioso e ridículo que alguns devotam aos símbolos nacionais. Pois, sempre que isso ocorre, é visível que seus autores praticam um patriotismo oportunista, último refúgio dos canalhas, como dizia Nelson Rodrigues. Nem acho necessário pôr a mão no peito ou bater continência quando ouço o hino nacional ou quando assisto ao hasteamento da bandeira. Para mim é suficiente o sentimento íntimo de respeito ao meu país, ao seu povo e às suas instituições. Basta-me ter consciência de meus deveres constitucionais. Basta-me estar a par do que precisa ser feito para oferecer mais alegria e mais futuro aos irmãos de todos os credos, todas as raças, todas as escolaridades, todos os níveis de renda, todas as ideologias. Basta-me colocar-me à disposição do bem comum, trabalhar e lutar por ele. Basta-me, em síntese e sem exageros exibicionistas, ser brasileiro.

Olho aquela bandeira rota, desbotada e sofrida, e sinto um misto de pena e indignação, de raiva e de vergonha. Minha vontade é a de escalar o prédio em frente para resgatá-la dos que não a merecem. E, tal como se faz com um bebêzinho abandonado, chamá-la de bandeira minha, restituir-lhe  as cores, a dignidade, a altivez. E dar-lhe colo, carinho, cuidado e respeito. 

Leia outros artigos de Paulo José Cunha

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

 

 

Continuar lendo