A loucura do mundo e a das leis

“Em um mundo louco, apenas os loucos são sãos.” Fico a pensar se o saudoso cineasta Akira Kurosawa, ao pronunciar esta frase, vagava com seu espírito pelo mundo das leis.

Há poucos dias, por exemplo, a cidade de Brooksville, nos Estados Unidos, aprovou um Código de Vestimentas que obriga todos os trabalhadores de lá a usarem roupa de baixo e desodorante. A pena para os infratores vai desde desconto no salário até demissão. Fico imaginando como será fiscalizado o cumprimento desta lei!

Já em Éboli, na Itália, desde o ano passado é crime qualquer demonstração pública efusiva de amor dentro do carro. Assim, quem der um beijo na namorada dentro de seu possante pagará uma pesada multa de 500 euros. Já na Inglaterra a lei proíbe beijos apenas dentro dos cinemas.

Neste ponto os norte-americanos são mais liberais: na cidade de Alexandria o beijo é liberado, desde que não se esteja com bafo de cebola, alho ou sardinha. Já pensou nos pobres policiais inspecionando os casais apaixonados? Haja nariz!

Vamos a outro exemplo: em 2007, na Inglaterra, resolveram fazer uma pesquisa sobre leis consideradas ridículas, e a vencedora foi uma do estado de Ohio, nos Estados Unidos, que define como crime o ato de embebedar peixes! Lá, a Lei Seca vigora até debaixo d’água. Sérias candidatas neste concurso foram outras duas leis norte-americanas: uma de Michigan punindo quem amarrar jacarés em hidrantes e outra do Missouri proibindo elefantes de tomar cerveja.

Mas não falemos só das leis: há também os encarregados de interpretá-las. Podemos começar por um indiano de 75 anos recentemente condenado a um ano de prisão por ter cobrado o equivalente a R$ 0,50 para emitir um atestado de saúde falso – há 24 anos! Sim, este incrível suborno aconteceu em 1985!

Há também o caso do americano que comprou um trailer motorizado e foi viajar. Ao entrar em uma rodovia ele marcou o piloto automático para 100 km/h, levantou-se e foi para a traseira do veículo preparar um café. Como seria de se esperar, o veículo saiu da estrada e acabou capotando. Acredite: este iluminado cidadão ganhou na Justiça US$ 1,75 milhão de indenização porque a concessionária não explicou a ele que o piloto automático só mantinha a velocidade, sendo incapaz de dirigir o veículo sozinho.

Ainda naquele país um ladrão invadiu uma garagem pelo telhado, e depois não conseguiu sair dela. Como os donos da casa estavam de férias ele acabou ficando preso lá dentro uns oito dias, comendo ração de cachorro e bebendo alguns refrigerantes que encontrou. Pois bem: a Justiça determinou ao dono da casa que indenizasse o ladrão em US$ 500 mil, dada a “profunda angústia mental” por este sofrida durante aqueles dias.

Que dizer do caso da criança de 13 anos que foi estuprada por três homens? Ela teve a infeliz ideia de ir a uma delegacia protestar. Acabou condenada pela Justiça da Somália à morte por apedrejamento. A sentença foi executada em praça pública, diante de umas mil pessoas. Coisa de país atrasado? Em St. Louis, nos Estados Unidos, condenaram à morte um doente mental – e determinaram que ele fosse tratado até ficar são o suficiente para entender que seria executado.

Pois é. Talvez, como exclamou Bernard Shaw, estejamos precisando de alguns loucos por este mundo afora – vejam só para onde as pessoas normais nos levaram!

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