Deputada desiste de renunciar à vice-presidência da CDH

Integrante de comissão “satanizada” por Feliciano, Antônia Lúcia descarta deixar o posto após conversa com colega. Líder do PSC cobra desculpas públicas de pastor

A vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Antônia Lúcia (PSC-AC), afirmou hoje, por meio de sua assessoria, que não vai renunciar ao posto. A possibilidade foi levantada ontem (2), com a repercussão negativa da declaração do presidente do colegiado, Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), de que a comissão era comandada anteriormente por Satanás. Em entrevistas publicadas na segunda-feira, Antônia Lúcia dizia se sentir ofendida pelo colega de partido, pois também integrou a comissão em gestões anteriores.

Diante da nova polêmica, a deputada chegou a dizer ao líder do PSC na Câmara, André Moura (SE), que cogitava a renúncia – ela é vista por membros do PT e outros partidos na CDH como a solução, ao menos temporária, para substituir Feliciano na presidência do colegiado. Segundo André Moura, a deputada mudou de ideia após conversar ontem à noite com o próprio Feliciano.

“Ela conversou com o deputado Pastor Marco Feliciano na noite de ontem. Teve uma conversa conosco hoje. E permanece na primeira-vice-presidência da comissão”, declarou o líder do PSC, para quem as declarações do deputado foram “infelizes”.

Segundo André Moura, Feliciano ainda deve se retratar diante de seus pares. “Acho que agora cabe a ele um pedido de desculpas oficial. Logicamente, a Mesa Diretora da Casa fará uma análise das consequências da declaração, porque, apesar de ser num culto evangélico, ele fez referência a parlamentares que faziam parte da comissão no ano passado, e alguns que continuam fazendo parte da comissão neste ano”, acrescentou o deputado sergipano.

Partido incomodado

“É uma situação que deixa o partido incomodado, toda a bancada incomodada. As declarações do pastor também nos deixam preocupados. Mas entendo que nesse momento a coisa tomou proporções maiores que fogem da alçada da bancada e da liderança”, arrematou André Moura, lembrando que, na próxima terça-feira (9), nova reunião de líderes vai ser “decisiva” para os rumos da CDH.

Satanás

Em culto evangélico no município de Passos (MG), Feliciano afirmou que a CDH era “dominada por satanás” até o dia de sua posse, em 7 de março. “Essa manifestação toda se dá porque, pela primeira vez na história deste Brasil, um pastor cheio de Espírito Santo ocupa um espaço que até ontem era dominado por Satanás”, disse o parlamentar durante o culto.

Momentos depois, ele enfrentou novo protesto na cidade mineira, e aproveitou para comentar a situação – e tentar explicar suas declarações. “Quando cito Satanás estar em locais de trabalho, falo sobre adversários. Satanás ou Satã, do hebraico, significa adversário/acusador. [...] Duas mil pessoas tiveram seu direito de liberdade de culto violado. Mas o que interessa é que falei sobre satanás, que significa ‘adversário’”, justificou Feliciano, que resiste a renunciar ao posto.

Sob pressão

Deputado de primeiro mandato, Feliciano é protagonista de uma série de episódios que, quando tomou posse da CDH, inviabilizam as deliberações da comissão. Agressões físicas e verbais entre deputados, detenção de manifestantes e cancelamentos de sessão do colegiado têm sido ocorrências corriqueiras em meio a discussões acaloradas entre a bancada evangélica na Câmara e parlamentares ligados aos direitos humanos, com o apoio de representantes da sociedade civil.

O PPS anunciou que vai entrar com representação contra ele no Conselho de Ética. Um grupo de parlamentares ligados à defesa dos direitos humanos recorre ao plenário contra a eleição de Feliciano como presidente da Comissão de Direitos Humanos.

Em entrevista ao programa Poder e Política, da Folha de S. Paulo e do UOL, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara,Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), diz que não há “possibilidade nenhuma” de renunciar ao cargo. Ele afirma que ainda estuda se vai à reunião convocada pelo presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), com os líderes partidários, para tentar convencê-lo a se afastar da comissão, pois teme ser “achincalhado” e “oprimido”.

Feliciano declara ser vítima de uma “ditadura gay” e critica a criação de uma lei contra a homofobia. Para o deputado, caso a proposta em tramitação no Senado torne-se lei, será preciso criminalizar a discriminação de “caolho”, “careca” e “banguelo”. “Porque todas essas pessoas também sofrem bullying”, afirmou.

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