A vitória invisível

A ideia em um segundo

Seria leviano, nessa crise crônica que o país atravessa, considerar que as instituições brasileiras estão funcionando normalmente. Mas a boa notícia é que a tentativa de golpe do Sete de Setembro fracassou. O Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) estão abertos e operando. Nenhum ato violento de maior gravidade ocorreu. Mas as consequências do ensaio de golpe, infelizmente, também aí estão: pauta do Congresso travada, economia ladeira abaixo, precificando a incerteza e o sequestro da Câmara dos Deputados pelo Centrão, com o alto preço pago por isso. 

 

O ensaio de golpe no Sete de Setembro não deu certo. E isso é razão suficiente para celebrar
 Alan Santos

A dedetização mais cara da história 

O bug do milênio – um problema nos sistemas informatizados que tinham codificado o ano com dois algarismos e que precisariam reverter isso em bilhões de linhas de código – foi um problema fantasma: assombrou a muitos e acabou se revelando uma ilusão. Bom, não foi bem assim. O bug do milênio existiu e o fato de não ter causado os problemas antevistos foi devido a todo o esforço que se fez na sua antecipação. 

Bilhões de dólares foram gastos, o que tornou a pressão por resultados mais “tangíveis” ainda maior. Alguns profissionais foram demitidos, outros desacreditados, mas o fato é que cumpriram sua missão. 

Lavar as mãos é outro gesto insanamente desprezado, diante das evidências avassaladoras de seus resultados. O fato é que esses também são invisíveis – germes que não conseguem se transportar para dentro do corpo e provocar doenças. Diante de uma pandemia, particularmente, o desprezo a esse fato científico tem consequências graves. 

Instituições são invisíveis 

Instituições são invisíveis. Sua existência é comprovada, mas não se consegue tocá-las. Algumas têm manifestações físicas, como é o caso dos prédios que abrigam as atividades institucionais. Porém, seguem existindo apenas como consenso coletivo. Muitas vezes pode-se esquecer que elas existem – esse desprezo pode ter consequências tão graves quanto às de uma pandemia. 

Não defendemos aqui a tese de que as instituições brasileiras estão funcionando. Pelo contrário, como já apontado pelo Farol em outras ocasiões, compreendemos que as algumas instituições foram capturadas e funcionam em modo síndrome de Estocolmo, com apego ao sequestrador. 

Por outro lado, passados os últimos acontecimentos, o Farol entende que houve uma vitória institucional brasileira – uma vitória invisível. 

O golpe fracassou 

Chegamos ao dia dez de setembro com o Congresso Nacional aberto e funcionando e com o Supremo Tribunal Federal aberto e operante. As forças policiais não se sublevaram, nem sequer tentaram. A presença de um grande contingente de pessoas nas ruas acabou se revelando insuficiente para as aspirações de quem imaginou algo em torno de dez vezes maior. 

Ou seja, as instituições seguem existindo. E sua existência, pelo menos até aqui, bastou para conter o ímpeto golpista anunciado do governo Bolsonaro. Inúmeros bastidores dão conta de que estivemos, de fato, perto de um desenrolar completamente diferente. Parece que ao contrário de outros momentos da história, faltou protagonismo, ou seja, atores que assumissem os riscos e chegassem às vias de fato. Na verdade, o risco de se estar em um golpe fracassado é muito elevado – para um militar, por exemplo, pode custar a carreira e a tão estimada pensão para as filhas. Apesar de todo o dinheiro investido e todo esforço de mobilização, Bolsonaro não conseguiu ser uma alternativa crível de golpe vencedor (e sustentável) perante seus possíveis cúmplices no ataque à democracia. 

Nova temporada

As instituições reagem à ameaça antidemocrática, como no duro discurso feito na quinta-feira (9) por Luís Roberto Barroso, presidente do TSE
 Antonio Augusto/Ascom/TSE
O que era para ser o fim, entretanto, virou apenas o fim de uma temporada. O governo Bolsonaro entra em uma nova fase. Não fosse uma novela da vida real, com mais de duzentos milhões de pessoas participando inadvertidamente, seria até interessante observar os desdobramentos, do ponto de vista da anatomia – poder-se-ia dissecar-se o golpe e, no mínimo, chegar a um best seller brasileiro sobre como se matam as democracias. 

Como é da vida real que estamos tratando, infelizmente, as consequências são as mais nefastas. Os primeiros sinais apontam para: 

  • manutenção do sequestro da Câmara dos Deputados pelos partidos do Centrão, com aumento do preço do apoio a Bolsonaro, que já tinha passado do exorbitante há muito tempo, até para os padrões nacionais;
  • travamento da agenda legislativa pelo Senado, notadamente pelo desejo de seu presidente de se distanciar de Bolsonaro e articular-se como possível terceira via, com a pecha de grande conciliador e moderador nacional (aliás, um manto que sempre cai bem em políticos mineiros);
  • mercado financeiro precificando a incerteza, o que, como se sabe, pode se tornar um círculo vicioso, no qual as expectativas frustradas alimentam a frustração das expectativas, com potencial de deterioração bastante rápido (haja vista o comportamento dos juros futuros, da bolsa e das previsões de PIB e inflação para o próximo ano);
  • economia real travada por baixos investimentos, alta inflação, alto desemprego, incertezas globais ainda relacionadas à pandemia;
  • tensão social crescente, com possibilidade de extravasamento e violência em algum momento. 

Ou seja, o final dessa nova temporada já se anuncia como trágico. Não há mais a hipótese de um final feliz, sob pena de inverossimilhança. 

A vitória invisível

Como colocamos ao início, contudo, há que se celebrar a vitória de um dia, ainda que a batalha esteja longe do seu final. O malogrado golpe de Sete de Setembro trouxe a perspectiva de um país normal – pessoas se manifestam, alguns atos isolados de vandalismo e violência, pessoas voltam para suas casas. Sim, os atos foram antidemocráticos; ameaças não estão protegidas pelo direito de liberdade de expressão; não existe hipótese de intervenção militar na Constituição; as Forças Armadas não são um poder. Sim, tudo isso é verdade. Porém, celebramos mesmo assim, o fato de que os delírios golpistas não se concretizaram. Para quem saiu de casa no Sete de Setembro para tomar o poder (expressão ouvida pessoalmente por um dos autores), o retorno sem o poder nas mãos teve um quê de amargura. 

A pauta travada no Congresso é um dos efeitos colaterais da crise crônica imposta por Bolsonaro
 Cleia Viana/Câmara dos Deputados

Termômetro

Chapa quente

De certa forma, as manifestações do Sete de Setembro não terminaram. Como até havia antecipado o cantor sertanejo Sergio Reis, parte das pessoas que vieram para Brasília aqui permanecem. E seguem afrontando os poderes e ameaçando invadir os espaços preservados pelas forças de segurança. Estradas têm sido bloqueadas por caminhoneiros, ainda que a essa altura à revelia da própria vontade de Bolsonaro. Será preciso acompanhar o desdobramento de tais atos e sua consequências, mais ou menos violentas.

Geladeira

O clima de instabilidade constante, que o próprio presidente Bolsonaro germina impede o avanço de qualquer pauta no Congresso. A votação das reformas está parada. Na semana que termina, nem sessões deliberativas aconteceram no Senado. A Câmara manteve as sessões, para tentar avançar em uma pauta que não é do governo, mas sua, o Código Eleitoral. O país segue congelado pela insistência do presidente em temas polêmicos, que, pelo que disse esta semana um de seus aliados, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), não são de fato aqueles que interessam neste momento ao país.

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O Farol Político é produzido pelos cientistas políticos e economistas André Sathler e Ricardo de João Braga e pelos jornalistas Sylvio Costa e Rudolfo Lago. Edição: Rudolfo Lago. Design: Vinícius Souza.
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